Todas as
imagens daqueles 17 dias no inferno desfilaram na minha cabeça
Camaradas,
convidados pela Comissão de
Direitos Humanos da OAB-SP, fizemos hoje (29/1/2013) uma visita de inspeção às
instalações onde funcionou, principalmente, nas décadas de 60 e 70 – depois, já
sem tanto poder, nos anos 80 – o Doi-Codi de São Paulo, inicialmente batizado
de Operação Bandeirantes. A visita foi programada pela OAB-SP diante das
informações de que o prédio onde funcionou o mais sinistro
aparelho de repressão já montado neste país, e onde dezenas de pessoas foram
assassinadas, estava sendo descaracterizado como parte de uma estratégia para
subtrair da memória deste país os crimes ali perpetrados e seus autores,
funcionários públicos das três Forças Armadas e da Secretaria de
Segurança Pública do Estado de São Paulo.
Fiquei encarregado de fazer o
relatório da visita, coisa que pretendo fazer nos próximos dias com a
colaboração dos demais companheiros que fizeram a visita. Esse, porém, é um
relato pessoal e impressionista dessa visita. Desde o dia 16 de outubro de
1969, quando deixamos a Operação Bandeirantes, algemados uns aos outros, eu, o
Manoel Cyrillo e o Paulo de Tarso, nunca mais eu havia colocado os pés sequer
no pátio do 36º Distrito Policial, em cujos fundos funcionava a Oban. Eu até já
participei de manifestações ali em frente, mas nunca tive a coragem de passar
da calçada.
Dizem que, como num filme, a
vida inteira passa por nossos olhos na hora de morrer. Se for verdade, eu morri
um pouco hoje. Apesar de todas as obras e mudanças feitas, quando cheguei na
porta da edícula onde funcionava a Oban, todas as imagens daqueles 17 dias no
inferno desfilaram pela minha cabeça, a começar pelas palavras do delegado Raul
Nogueira – membro do CCC, assassino do comandante Marquito e, mais tarde,
condenado pelo assassinato de um soldado do Exército – ao me entregar a
uma dupla de psicopatas, o capitão do exército Benone de Arruda Albernaz e o
sargento PM Paulo Bordini (que ficou conhecido como “Risadinha”, devido ao
riso histérico enquanto torturava): “Esse é daqueles que não sabem nada.
Tratem bem dele”, recomendou o Raul Careca ao Albernaz. Eu logo descobriria o
que era o bom tratamento do lugar.
O filme continuou se
desenrolando enquanto subia as escadas. No primeiro andar ficava a sala do
major Waldir Coelho, primeiro comandante da Oban, que uma noite me tirou da
cela para fazer café e conversar sobre a minha e a sua situação.
No segundo andar, na parte dos
fundos da edícula, uma sala maior, na época separada por divisórias de Eucatex
em três salas de interrogatório: duas menores, onde era armado o pau-de-arara;
a terceira, mais espaçosa, com uma escrivaninha e a cadeira-do-dragão. Foi
nesta terceira sala que eu fui jogado, as pernas paralisadas devido a algo
entre três e quatro horas de pau-de-arara, para que a câmara de torturas
pudesse ser usada para assassinar o Virgílio Gomes da Silva, nosso Comandante
Jonas.
As lembranças de 43 anos atrás
devem ter feito minha pressão arterial chegar a 18 ou 19. Tive de sentar nas
escadas para recuperar o fôlego.
E consegui, finalmente,
entender um detalhe que não conseguia explicar. Por que eu não ouvi os gritos
do Celso Horta, torturado na outra câmara de torturas, separada da minha apenas
por uma divisória de Eucatex, e ouvi os assassinos do Jonas enquanto o
interrogavam? Quem matou a charada foi a Darci [Miyaki], que passou por
essa experiência inúmeras vezes: a gente não ouve os gritos das outras pessoas
enquanto nós mesmos estamos gritando.
Não entrei na área onde ficavam
as celas – a carga emocional do dia já era bastante pesada e as pessoas estavam
preocupadas com minha reação. E confesso que eu também estava.
De qualquer forma, pudemos
comprovar que foram e estão sendo feitas mudanças para descaracterizar o que
foi o maior centro de torturas já instalado neste país.
Enfim, companheiros, saí com a
impressão de que nós e nossos companheiros continuamos a ser torturados. E que
as Forças Armadas precisam decidir se vão continuar, por puro
espírito de corpo, a defender e procurar encobrir os crimes desses criminosos
ou vão renegá-los para ajudar a construir o Brasil que todos nós queremos.
Foi um dia doloroso, mas
essencial para entender muita coisa sobre nosso passado, presente e futuro.
Um abraço a todos
A.C.Fon
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