Com as recentes manifestações realizadas por
jovens organizados no Levante Popular da Juventude e em outros coletivos, o
embate político a respeito da Comissão da Verdade ganhou as ruas. Antes
restrita a, de um lado, parlamentares, defensores dos direitos humanos e
vítimas da tortura e, de outro, torturadores escondidos por detrás do Clube
Militar aliados a Justiça e a grande mídia, o Levante Popular da Juventude
conseguiu, escrachando, mostrar à sociedade que esta não é uma bandeira
daqueles que “foram derrotados” pela Ditadura Militar. Essa bandeira é dos que
resistiram à Ditadura e de todo o povo brasileiro.
Nossas ações romperam a barreira que represava
uma série de angústias, de medos, de revoltas e de injustiças sofridas pelo
povo brasileiro. Tal barreira sempre foi o silêncio do Estado sobre o período
da ditadura civil-militar, a impunidade daqueles que torturaram, estupraram e
assassinaram heróis do povo brasileiro, a omissão de corpos, de fatos, de
arquivos, enfim, da verdade histórica. Essa barreira impede a construção da
democracia brasileira, uma vez que carrega para o presente a impunidade do
passado. Assim os jovens do Levante denunciam a relação entre a violência da
ditadura com o autoritarismo do presente, na repressão aos movimentos sociais,
na criminalização da pobreza, no genocídio da população negra, no Eldorado dos
Carajás e nos Pinheirinhos dos dias atuais.
Quando fomos às ruas escrachar torturadores,
apontamos à sociedade o caminho a seguir para a democracia: é a ação, é a rua.
Tornamos concreta nossa palavra de ordem “só a luta muda a vida”. E, dessa
forma, animada e cheia de simbologia, nosso movimento ganhou a simpatia de
amplos setores da sociedade. Não apenas dos jovens, que agora temos o desafio
de acolhê-los em nossa organização, dar tarefas e formá-los na luta e para a
luta, através de muito trabalho de base e consolidação de nossas células.
Também recebemos apoio de militantes mais velhos, de parlamentares, de outros
movimentos sociais, de intelectuais e, principalmente, daqueles que resistiram
à ditadura. E, certamente, ainda que calados pela instituição, temos apoio de
jovens e membros das Forças Armadas, que se envergonham da prática da tortura e
querem saber quem são os torturadores (militares ou não) que mancham a honra da
instituição. É hora de agradecermos todo esse apoio e sabermos aprender com as
experiências acumuladas por essa geração, assim como sabermos utilizar todos os
braços que se dispõem a, mesmo que minimamente, contribuir para nossas lutas.
Seguiremos nas ruas para dizer à sociedade que,
ao contrário da história oficial, não houve uma mobilização de toda a população
exigindo dos militares o “restabelecimento da ordem”, em 1964. O que ocorreu
foi um golpe de Estado articulado pela burguesia brasileira, com o apoio do
imperialismo americano e o uso das Forças Armadas, contra um governo
democraticamente eleito. O povo, que lutava por melhorias em suas condições de
vida e por mais direitos, foi calado pela repressão. Dentro das Forças Armadas
existiram valentes resistentes que não se curvaram a interesses privados em
detrimento da defesa da Constituição e do povo. Até esses militares foram
vítimas da tortura e da perseguição. Aqueles que bravamente resistiram ao
governo ditatorial, diferente do que nos conta a história oficial, não são
terroristas. São, conforme as convenções internacionais, resistentes. Tinham o
direito de resistirem a um governo tirano e foram corajosos nesta empreitada.
Nestes bravos lutadores do povo é que nosso movimento se inspira.
Com nossas ações, queremos apoiar o governo na
realização da Comissão da Verdade, ao mesmo tempo em que o pressionamos para
que tal Comissão de fato apure a verdade dos fatos, não se deixando intimidar
pelas vozes defensoras dos torturadores. Queremos que a Comissão da Verdade
reconheça os crimes do Estado, buscando reparação às vítimas. Queremos que
sejam indicados os responsáveis por tais crimes, àqueles que executaram as
violações de direitos humanos, que torturaram, estupraram e mataram quem lutava
por democracia. Lutaremos para que estes violadores sejam punidos. Se a Justiça
continuar os protegendo, continuaremos os denunciando nas ruas. E, principalmente,
defendemos que a partir da Comissão da Verdade se inicie a reforma do Estado,
no sentido de torná-lo de fato democrático, reestruturando o aparato de
segurança do Estado de modo a remover as heranças da ditadura, transmitidas
institucionalmente e através das práticas discriminatórias e violadoras de
direitos humanos historicamente impunes.
Não há Estado democrático enquanto não se realiza
a justiça de transição, enquanto não conhecermos nosso passado, enquanto se
multiplicam as remoções violentas de favelas em prol da especulação
imobiliária, se pacificam os morros na base da violência, enquanto o Estado
utiliza dos mesmos artifícios da ditadura militar (a desinformação, o racismo,
a tortura e a violência) para defender os mesmos interesses que a ditadura
defendeu: os interesses dos ricos, da burguesia brasileira.
Por isso tudo, para nós, do Levante Popular da
Juventude, essa é uma bandeira essencial do Projeto Popular: Comissão da
Verdade Já! Seguiremos mobilizando amplos setores democráticos de nossa sociedade
e organizando a juventude do povo brasileiro para enfrentarmos essa e outras
batalhas que estão por vir.
João Victor Barison
Levante Popular da Juventude
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