Cinebiografia retrata a vida Luiz Gonzaga, o "Rei do Baião", que, se vivo, completaria 100 anos nesta quinta (13)
12/12/12
Maria do Rosário Caetano
Luiz Gonzaga (1912-1989), o sertanejo que criou e popularizou o baião, o xote e o xaxado, merecia um filme e muitos louvores no ano de seu centenário. Afinal, como não se cansam de afirmar Gilberto Gil e José Miguel Wisnik, ele integra o time de grandes inventores de nossa música popular.
Gil deixou claro em “O Homem Que Engarrafava Nuvens” que a MPB jorra de duas grandes fontes: a do samba (baiano e carioca) e a do forró e gêneros nucleados no Nordeste e derivados das invenções gonzaguianas.
Wisnik, por sua vez, lembra que Gonzagão inventou um formato cancional (o baião) que fascinou auditórios e resultou de várias matrizes, assimiladas no ouvir "violas de cantadores, aboios e emboladas”. O sanfoneiro as compactou “em dois minutos e meio de eficácia e sedução". O intelectual uspiano (também compositor, autor de “Assum Branco”) lembra, ainda, que Gonzaga inventou o trio “sanfona, triângulo-e-zambumba”, pois necessitava de formação instrumental compacta para apresentar-se em circos, praças e feiras, Brasil afora. Tal necessidade o levou a buscar a “decantação dessa rítmica sertaneja desidratada”. Ele na sanfona e mais dois cabras, por ele mesmo preparados, um na zabumba, outro no singelo triângulo. Tom Zé, outro sábio gonzaguiano das terras secas, viu na praticidade do trio instrumental de Gonzaga similar culinário do combinado “farinha e carne seca". Pret-à-porter, ou melhor, pret-à-manger, em qualquer circunstância e lugar.
Ao evocar o “Rei do Baião” no ano de seu centenário, Breno Silveira construiu “Gonzaga de Pai pra Filho”, épico sertanejo que imbrica pelos grandes centros urbanos (representados pela poderosa indústria fonográfica, pelo rádio, pela TV e pelos arquivos da chanchada), passando pela zona do meretrício (o artista começou sua vida artística no Mangue carioca) e desaguando na favela (já que Dina & Xavier, seus compadres, moravam no Morro de São Carlos e lá criaram o menino Gonzaguinha, filho de Odaléia & Gonzagão).
Breno buscou em dezenas de livros (e em muitos depoimentos) histórias do pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento e de seu filho famoso, Luiz Gonzaga do Nascimento Jr, o Gonzaguinha. O livro que mais lhe deu munição foi “Gonzaguinha e Gonzagão – Uma História Brasileira”, de Regina Echeverria (Ediouro, 2006). Breno bebeu, também, na fonte de “Vida de Viajante – A Saga de Luiz Gonzaga”, da francesa Dominique Dreyfus (Editora 34, 1996). Foi neste livro que ele e seus co-roteiristas encontraram matéria-prima para abordar tema-tabu entre gonzaguianos e familiares: a esterilidade de Lua Gonzaga. Ele não é pai biológico de Gonzaguinha, nem de Rosinha.
Para sintetizar a vida de Gonzagão em apenas 130 minutos, Breno traçou um caminho: o que o levou ao embate afetivo-e-político entre pai e filho. Deixou de lado parceiros (como Humberto Teixeira, que aparece pouco, Zé Dantas e outros, que nem aparecem), histórias amorosas fora do casamento, graves problemas de saúde e, principalmente, seu momento derradeiro: o sepultamento. O re-criador de “Asa Branca” teve um enterro épico. Seu caixão foi disputado por estados, municípios e fãs-idólatras.
“Gonzaga de Pai Pra Filho” é, como diz o título, uma história que vai de pai para descendente. De Januário, tocador e consertador de sanfonas, a Gonzagão, e deste para o filho, Gonzaguinha. No mais belo e empolgante momento do filme, Gonzaga regressa ao sertão, com seu fole prateado, artista famoso, vendendo tamanha quantidade de discos, que a matriz da RCA Victor (nos EUA) espantou-se. Quem era aquele artista que consumia quantidades industriais de carnaúba na prensagem de seus 78 RPM? Pois este homem enfrentou, com alegria e muito ritmo, o pai Januário, que seguia com sua humilde sanfona de oito baixos. No sertão, quem mandava era Januário! Que Gonzaga o respeitasse. Na pele do velho sertanejo, o cearense Cláudio Jaborandi apresenta-se em instante de iluminação.
O filme tem outros grandes momentos:
De humor: O ensaio dos novos integrantes do trio de Gonzaga (Custo de Vida, um sapateiro esquelético, na zabumba, e Salário Mínimo, um anão), totalmente nus num riacho, sob o calor escaldante do Nordeste.
De delicadeza: A esterilidade de Gonzagão é tratada abertamente no filme, mas sem nenhum sensacionalismo. Odaléia (dançarina das noites brasileiras) sempre se refere, em suas brigas com Luiz Gonzaga, ao bebê que virá como “meu filho”, nunca “nosso filho”. Helena, esposa de Gonzagão, usará barriga falsa para lamúria histérica (ele não consegue) engravidá-la. No longo depoimento que deu ao gravador do filho, sob a sombra de um juazeiro, Gonzagão diz a Gonzaguinha que ele pode “não ser seu filho de sangue, mas é seu filho!”
De empolgação: A sequência em que Gonzaga conquista o público do bar-restaurante onde mendigava uns trocados (e consegue gordas doações) cantando um novo e nordestino ritmo (o vira-e-mexe), alternada com a nota máxima que, finalmente, obtém no Programa de Calouros de Ary Barroso.
De concisão: A despedida de Gonzaguinha da casa de Dina & Xavier, no Morro de São Carlos. Ela se dá com uma das mais famosas composições do artista (“Com a Perna no Mundo”). A música, narrativa, diz tudo que precisa ser dito e empolga o espectador. Outro momento de rara concisão: quando a Bossa Nova triunfa e o forró perde espaço, ouvem-se os acordes de “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá. Nada mais precisa ser reiterado.
De embate duro: Gonzagão assiste ao noticiário na TV, que fala de revoltas estudantis contra o governo militar (que ele apóia, até porque sente-se um deles: esteve, por dez anos, engajado no Exército brasileiro). Com a conivência da mulher (Helena) entra no quarto do filho (todo decorado com posters "comunistas") e o pau quebra. Espanca Gonzaguinha e quebra o violão do aspirante a músico. Sem dizer nada o filho pega suas coisas e sai de casa para não mais voltar.
Diálogo com o documentário
Breno, fotógrafo experiente e cultor do documentário (trabalhou com Eduardo Coutinho) acerta em cheio ao somar imagens documentais ao seu filme. Ver Gonzaga, numa chanchada, tocando, cantando e dançando com Salário Mínimo & Custo de Vida não é apelar a imagens de arquivo que confiram “verdade” a um filme ficcional. É presentear o público com um momento antológico das comédias filmusicais brasileiras.
“Gonzaga de Pai Pra Filho” só tem um pecado grave: trilha sonora instrumental excessiva e apelativa. Com a potência das 18 canções selecionadas (15 de Gonzagão e três de Gonzaguinha), o melodrama gonzaguiano já estava muito bem servido. Não necessitava de tão dispensável adereço.
Fonte: http://www.brasildefato.com.br/node/11381

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